A bela e a fera feia

Posted in Gerais by Administrator on the January 4th, 2006

Enquanto não vêm os ensaios do novo ano, vou clicando… ao meu bel-desprazer.

Será que sabemos a diferença entre a bela e feia? Dizem, os estudiosos da mente humana, que belo é o simétrico. Adoramos simetria. Dois quadros de tamanhos iguais na parede, dois vasos, um em cada canto da sala, dois disso, dois daquilo. Quando a rebeldia assume partimos para o três. Primo, aquele que não se curva à simetria dual. Mas mesmo assim subvertemos sua imparidade e o tacamos ali no meio. São três quadros na parede, um deles dividindo a cena em duas. São três vasos na sala, marcando a diagonal. E por aí vamos. Belo, para os humanos, segundo os entendidos, é o simétrico.

Assim são os rostos e corpos que vemos. Bela é a narina sem desvio do septo. Retinha, ao meio. Os dois olhos perfeitamente iguais e sem aquele leve estrabismo que, no máximo, pode ser charmosinho na adolescente. A boca se divide em duas partes prontas para beijar igualmente.

Há experiências que comprovam. Toma-se um rosto não muito atraente e é feita uma montagem, um lado do rosto é espelhado no outro. Pronto! Como que não por um Pitangy mas por toda uma pitangueira, aparece alguém que provoca segundo olhar, e não aquele chocado, mas o docemente embasbacado. -É ela mesmo? Puxa, ficou bem melhor! Mas também, é Photoshop!

Mas tudo isso não explica a beleza real. Li uma vez que perguntaram à Cindy Crawford como era ser tão bela, e a resposta foi estonteante: -Você acha que eu acordo parecida com a Cindy Crawford?

Não, ela acorda como nós: baba ressequida no canto da boca, aquele hálito de ontem, uma marca de travesseiro cortando bem no meio da bochecha, digna de um scarface, e o cabelo mais espetado que o do Cebolinha. Mas em minutos algo acontece. Você, eu e a feia (aquela da escola, lembra?) ainda parecemos um ogro manco, um olho pra Lua e outro perdido no espaço, aquele fio de cabelo que não pára no lugar certo e, se parar, vai entrar no ouvido e coçar como cachorro sarnento. Mas alguns minutos depois algo acontece.

A bela conhece cada pedaço do próprio corpo e o que precisa ser escondido ou enaltecido. Uma correntinha no tornozelo, um pozinho disso ou daquilo aqui e ali, os brincos. Já viu as mãos de uma beldade? São sempre perfeitas. Já as da feia, são roidas (acredite, quase tão ruins quanto as minhas!). A feia quando ajeita o cabelo tem sempre aquele fio que se recusa a parar no lugar. Com a bela é, claro, um pouco diferente: tem aquela mechinha que fica charmosamente rebelde. E ela valoriza, puxando para trás da orelha com um sorriso (quase) tímido. Bela é aquela que sabe se valorizar.

E já que estamos no assunto, impossível não falar daquelas duas dos tempos da facú. A Fabi e a Marcinha. A Marcinha era baixinha, a Fabi mignon. A Marcinha, desastrada, a Fabi, engraçada(inha). A Marcinha, tadinha, era burra mesmo. A Fabi, tinha montes de esforçados professores particulares, todos nós loucos por uma aula tete a tete. A Marcinha tinha 1,50m de altura por 1,50m de diâmetro. A Fabi tinha 1,55m de altura e o corpo equilibrado entre o côncavo e o convexo. A Marcinha era feia. A Fabi, ahh a Fabi…

E se regredimos ainda mais, pros tempos da escola? No jogo de queimada a feia levava na cara mesmo. Se usasse aparelho então, coitada, era tiro ao alvo. Já a bela, levava uma boladinha de intensidade mediana no (onde mais poderia ser?) bumbum. E ela, microsegundos antes de ser atingida, virava de ladinho, dobrava um pouco a perna e soltava um gritinho que parecia música. Já a feia, esganiçava e berrava como uma louca até que, CABOOOM! Era atingida sem dó nem piedade. E todos ríamos. Ela ria também, pra mostrar espírito esportivo ou alguma graça. Nem que fosse ela a piada. Porque feia de mal com a vida não dá.

E agora, o grande final. Se chegou até aqui é porque espera uma conclusão redentora. Ou a vingança da feia, ou do cérebro da feia. Mas não há nada. Nunca houve. Como disse antes, esse blog é pro que me der na telha. E ainda não aconteceu de querer concluir essa “tese”. Sei, acabar um texto sem fim é uma coisinha feia.